Não pratico a tal da não-monogamia “consensual” porque eu não preciso do consentimento de nenhum vínculo para me relacionar com outras pessoas. Operar sem autoridade sobre a vida íntima dos outros significa abandonar a ideia de “permitir que seus parceiros tenham liberdade para ter outros relacionamentos” e substituí-la pela ideia de “quem sou eu pra dizer a eles o que podem ou não fazer com suas vidas?”

O problema do consentimento no Poliamor

Consentir é dar autorização e só podemos consentir sobre coisas das quais detemos os direitos de propriedade. O exemplo mais óbvio é o direito sobre nosso corpo: possuímos poder e autoridade suprema para decidir o que desejamos fazer ou o que os outros podem fazer com ele. Violar isso é estupro.

A ideia de propriedade nos dá exemplos de como presumimos, de maneira tóxica, que somos donos e, portanto, temos direitos sobre os outros: desde o pai consentir que a filha se case, até o namorado consentir que a namorada se relacione com outras pessoas além dele.

Mesmo em relacionamentos não-monogâmicos, continuamos encontrando a ideia de deter direitos sobre os outros e, portanto, ocorrem relações nas quais as liberdades devem ser “previamente acordadas” e que o exercício das mesmas não anteriormente negociado é de fato proibido, pois até que exista um consenso que indique o contrário, ninguém tem permissão de perseguir os próprios desejos

Só o fato de considerar que você tem o direito de exigir de outra pessoa que, para ela poder (ou não) exercer a própria liberdade de se relacionar com outras pessoas, vocês precisam chegar a um consenso ou acordo, é por si só uma mentalidade possessiva e antiética e exercer esse poder é uma agressão.

Ironicamente, o que se lê socialmente como agressão é justamente o contrário: recusar-se a submeter-se a essa autoridade é “falta de respeito” de “responsabilidade afetiva”. Se você realmente ama alguém, como ousa não aceitar que essa pessoa tem o direito de decidir o que você faz na sua vida privada?

Quando padrões monogâmicos se repetem na não-monogamia

O padrão em relacionamentos românticos, mesmo naqueles que questionam certas normas, é o de cedermos certo nível de controle sobre a vida um do outro e vice-versa. A norma que estabelece que as relações afetivas envolvem o controle da liberdade relacional do outro é amplamente aceita.

Essa convenção, portanto, de assumir que temos algum tipo de autoridade sobre nosso parceiro é tão forte que quando um Anarquista Relacional diz “meu parceiro não tem poder ou autoridade alguma sobre o que eu faço na minha vida”, isso é percebido como egoísmo ou uma falta de compromisso. É lido como falta de cuidado e amor “verdadeiro”. “Não é melhor ficar solteiro?”

amizades estão livres disso

Isso, entretanto, só ocorre em relacionamentos românticos. As amizades já são abertas sem a necessidade de nenhum consenso, negociação ou pacto prévio.

Sério mesmo: quantas vezes você precisou abrir uma amizade? Não ousariamos tentar estabelecer acordos ou regras com uma amizade sobre como ela pode estabelecer novos vínculos, sejam eles quais forem.

Só uma amizade viesse até você e dissesse “pega a visão: quando você conhece e fica afim de alguém e começa a transar e dormir na casa dessa pessoa, eu tenho dificuldade de aceitar e gostaria que negociássemos alguns acordos dentro dos quais eu me sinta seguro e confortável”, DUVIDO que você acharia sensato.

TU MANDARIA ELA TOMAR NO C*!

Porque é um absurdo uma amizade tentar intervir na sua vida nesse nível e querer exercer essa autoridade sobre você.

Então de onde o Poliamor, tirou que é ético exercer essa autoridade sobre outra pessoa? Quando vejo como são as dinâmicas e o que é normalizado em todas as formas de “não-monogamia Ética/Consensual”, só consigo pensar no contrário: isso é antiético pacas.

Até esses termos guarda-chuvas são completamente errados: “consensual” porque, diferente da monogamia, aqui as pessoas têm a permissão (oi?) de outras para se envolverem com terceiros e “ética” porque teoricamente existe uma não-monogamia “antiética” por aí da qual eu nunca ouvi falar.

Ah, pera! Meu tradutor corrigiu automaticamente esse termo pra “Monogamia”.

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